sexta-feira, 10 de abril de 2015



(SORRI! - Permite-te gostar de sorrir...)
Tens dias em que te faltam uns metros e o mundo,
uma mão e um corpo,
uma palavra e as outras - como cerejas,
e um ombro ao pé do rio
(o de um amigo).
Dizes que chorar no abraço de alguém
a quem dizes como vais te lava a alma
e te faz escorrer as lágrimas como a água da chuva
a caminho do mar
(das tuas mágoas).
Precisas disso – é o que mais dizes.
Mas um amigo é vento:
é o que te soa no sopro como a sua voz, na verdade,
mas é mesmo o vento
que aparece em tempo
para afastar os cantos dos teus lábios um do outro,
como se cada um fosse uma nuvem
e, entre eles, descobrisse um teu sol.
(Deixa que o destapem, é um sorriso.)
© Sérgio Lizardo


quarta-feira, 11 de março de 2015

Conta comigo sempre


Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota
de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas ve-
zes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio,
outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, re-
cordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual
consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.
O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que masti-
gam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das
pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com
uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se a-
ninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do
desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas,
ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, con-
tigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, con-
tigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repar-
tirei até o que é indivisível.
Tu sabes onde estou. Sabes como me chamo. Estarei presente
quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a ho-
ra decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua
antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá decerto
algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol lim-
po que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar,
entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer,
as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.
© Joaquim Pessoa
Imagem do Google


Rosas


As Rosas

Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores 
Matinais;
Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.
Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.
Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.
© Machado de Assis
Arte © Pierre Auguste Renoir 





segunda-feira, 9 de junho de 2014

Fado





Maria , saia todas as sextas a seguir ao jantar, certas pessoas da terra achavam estranho ver uma mulher assim sozinha a passear na rua de noite,mas para ela não era ,já o fazia há muitos anos.
Sempre ás sextas, Maria punha o seu xaile, herança de família e punha-se ao caminho até ao bar que sempre frequentava nesse dia,para ouvir fados.
Já a conheciam por lá, tinha até lugar marcado e sabia todos os fados de cor.
Sentava-se e quando o som das guitarras se fazia ouvir, deixava-se ficar embevecida com todo aquele ambiente e com as letras que cantava só para si, para ela o fado não era triste, não transmitia só saudades, pelo contrário estar ali para ela era como ir aos domingos à igreja ,algo a que também nunca faltava, tudo aquilo lhe transmitia paz e sentimentos e lembranças que nem conseguia explicar.
O seu gosto pelo fado já vinha dos seus avós e dos seus pais , que adoravam fado , todos os dias Maria ouvia ou os seus avós cantarem mesmo quando estavam a trabalhar no campo ou a sua mãe a cantar e o seu pai a tocar guitarra ,iam até tocar numa casa de fados, e ela mesmo em criança gostava daquele som.
Agora vivia sozinha e estar ali fazia-a sentir bem ,lembrou-se da voz da sua mãe que sempre com medo que se constipasse lhe cantava o que naquele momento com vozes tão melodiosas e talentosas se fazia ouvir,e Maria ali ficava até acabar a noite....

Susana Garcia Ferreira



Foto de Eduarda ,in Museu da Anadia .




sábado, 23 de fevereiro de 2013

Contradições




Conto pelos dedos os dias que faltam para te ver,
vou riscando as datas
numa simples folha de calendário., deste mês tão curto.
Tento parar o tempo,
as horas,
os dias,
nos momentos bem passados...
mas este teima em não parar ,
não anda ,
corre com passadas largas...
e eu tento agarrá lo,
porque ás vezes apetece que não fuja,
que não passe....

Susana Ferreira
 



sábado, 2 de fevereiro de 2013



Coimbra

Coimbra,
Cidade das lágrimas
derramadas na fonte dos amores...
prantos chorados
pela bela D.Inês.
És Terra de sonhos.
encantos e tradições...
lendas,
que nunca te deixam morrer.
Em ti ,
existem poetas,
escritores famosos...
que vão contando a tua história.
Coimbra,sempre Coimbra...
és mulher
musa encantada,
no fado és cantada...
e pela Rainha Santa,
serás sempre abençoada.
Tu e as tuas gentes
alegria do teu viver...
Oh Coimbra do Mondego,
onde navega o Basófias
e se passeiam as ninfas
do Choupal até á Lapa...
a tua beleza perdura.
Coimbra,
dos amores...
feita de bons corações,
cidade dos encantos
é contigo,
sempre e só contigo...
que se aprende a dizer
Saudade...

Susana Garcia Ferreira


domingo, 13 de janeiro de 2013

A espera






Maria, acordava de manhã cedo ainda o sol nascia . Todos os dias a sua rotina era atravessar a estrada e caminhar até há praia calma e deserta onde lhe estava destinado um lugar perto do mar, composto por duas cadeiras e uma mesa de madeira azul já desgastadas pelas marés e pelo tempo. Maria vivia sozinha já há uns cinco anos desde que se divorciara do marido, foi cada um viver para seu lado e Maria comprou uma pequena casa de praia mesmo junto ao mar, era lá que vivia e se sentia bem. Levava sempre todas as suas tralhas consigo, mas o que era indispensável e que nunca esquecia , era o seu livro que lhe fazia companhia de manhã até há noite, a sua máquina fotográfica para registar certos momentos , a sua lata de cerveja que a refrescava e os seus óculos de sol para melhor olhar o horizonte. Todos esses objectos eram pousados diariamente sobre essa mesa de madeira azul... Maria sentava-se , olhava o horizonte e contemplava também a segunda cadeira sempre vazia na esperança que alguém atravessasse o pontão e se sentasse nela, era sempre o que pensava.... Gostava também de fazer uma pausa na sua leitura e caminhar sobre a areia,sentir aquela sensação ,e caminhar pelo pontão até ao fim e depois regressar,sempre o fazia mas nunca por lá encontrava ninguém. Aquela cadeira continuava vazia , apenas o mar embatia nas rochas e se vinha sentar...


Susana Ferreira,escrito em Agosto