quarta-feira, 11 de março de 2015

Conta comigo sempre


Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota
de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas ve-
zes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio,
outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, re-
cordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual
consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.
O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que masti-
gam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das
pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com
uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se a-
ninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do
desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas,
ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, con-
tigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, con-
tigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repar-
tirei até o que é indivisível.
Tu sabes onde estou. Sabes como me chamo. Estarei presente
quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a ho-
ra decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua
antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá decerto
algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol lim-
po que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar,
entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer,
as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.
© Joaquim Pessoa
Imagem do Google


Rosas


As Rosas

Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores 
Matinais;
Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.
Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.
Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.
© Machado de Assis
Arte © Pierre Auguste Renoir 





segunda-feira, 9 de junho de 2014

Fado





Maria , saia todas as sextas a seguir ao jantar, certas pessoas da terra achavam estranho ver uma mulher assim sozinha a passear na rua de noite,mas para ela não era ,já o fazia há muitos anos.
Sempre ás sextas, Maria punha o seu xaile, herança de família e punha-se ao caminho até ao bar que sempre frequentava nesse dia,para ouvir fados.
Já a conheciam por lá, tinha até lugar marcado e sabia todos os fados de cor.
Sentava-se e quando o som das guitarras se fazia ouvir, deixava-se ficar embevecida com todo aquele ambiente e com as letras que cantava só para si, para ela o fado não era triste, não transmitia só saudades, pelo contrário estar ali para ela era como ir aos domingos à igreja ,algo a que também nunca faltava, tudo aquilo lhe transmitia paz e sentimentos e lembranças que nem conseguia explicar.
O seu gosto pelo fado já vinha dos seus avós e dos seus pais , que adoravam fado , todos os dias Maria ouvia ou os seus avós cantarem mesmo quando estavam a trabalhar no campo ou a sua mãe a cantar e o seu pai a tocar guitarra ,iam até tocar numa casa de fados, e ela mesmo em criança gostava daquele som.
Agora vivia sozinha e estar ali fazia-a sentir bem ,lembrou-se da voz da sua mãe que sempre com medo que se constipasse lhe cantava o que naquele momento com vozes tão melodiosas e talentosas se fazia ouvir,e Maria ali ficava até acabar a noite....

Susana Garcia Ferreira



Foto de Eduarda ,in Museu da Anadia .




sábado, 23 de fevereiro de 2013

Contradições




Conto pelos dedos os dias que faltam para te ver,
vou riscando as datas
numa simples folha de calendário., deste mês tão curto.
Tento parar o tempo,
as horas,
os dias,
nos momentos bem passados...
mas este teima em não parar ,
não anda ,
corre com passadas largas...
e eu tento agarrá lo,
porque ás vezes apetece que não fuja,
que não passe....

Susana Ferreira
 



sábado, 2 de fevereiro de 2013



Coimbra

Coimbra,
Cidade das lágrimas
derramadas na fonte dos amores...
prantos chorados
pela bela D.Inês.
És Terra de sonhos.
encantos e tradições...
lendas,
que nunca te deixam morrer.
Em ti ,
existem poetas,
escritores famosos...
que vão contando a tua história.
Coimbra,sempre Coimbra...
és mulher
musa encantada,
no fado és cantada...
e pela Rainha Santa,
serás sempre abençoada.
Tu e as tuas gentes
alegria do teu viver...
Oh Coimbra do Mondego,
onde navega o Basófias
e se passeiam as ninfas
do Choupal até á Lapa...
a tua beleza perdura.
Coimbra,
dos amores...
feita de bons corações,
cidade dos encantos
é contigo,
sempre e só contigo...
que se aprende a dizer
Saudade...

Susana Garcia Ferreira


domingo, 13 de janeiro de 2013

A espera






Maria, acordava de manhã cedo ainda o sol nascia . Todos os dias a sua rotina era atravessar a estrada e caminhar até há praia calma e deserta onde lhe estava destinado um lugar perto do mar, composto por duas cadeiras e uma mesa de madeira azul já desgastadas pelas marés e pelo tempo. Maria vivia sozinha já há uns cinco anos desde que se divorciara do marido, foi cada um viver para seu lado e Maria comprou uma pequena casa de praia mesmo junto ao mar, era lá que vivia e se sentia bem. Levava sempre todas as suas tralhas consigo, mas o que era indispensável e que nunca esquecia , era o seu livro que lhe fazia companhia de manhã até há noite, a sua máquina fotográfica para registar certos momentos , a sua lata de cerveja que a refrescava e os seus óculos de sol para melhor olhar o horizonte. Todos esses objectos eram pousados diariamente sobre essa mesa de madeira azul... Maria sentava-se , olhava o horizonte e contemplava também a segunda cadeira sempre vazia na esperança que alguém atravessasse o pontão e se sentasse nela, era sempre o que pensava.... Gostava também de fazer uma pausa na sua leitura e caminhar sobre a areia,sentir aquela sensação ,e caminhar pelo pontão até ao fim e depois regressar,sempre o fazia mas nunca por lá encontrava ninguém. Aquela cadeira continuava vazia , apenas o mar embatia nas rochas e se vinha sentar...


Susana Ferreira,escrito em Agosto


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Robe de chocolate

Envolta no meu robe de chocolate,
chego-me a ti...
 sinto o aroma de morangos e framboesas
 acabadas de colher,
do nosso jardim.
Encosto-me,
beijo-te...
As fragrâncias misturam-se,
formando como que uma sobremesa inebriante.
Tu passas os dedos
 pela minha capa de chocolate,
 que a pouco e pouco se vai derretendo
destapando o meu corpo...
 e eu vou-me deliciando,
e provando...
os frutos acabados de colher,
saboreando
devagar....

 Susana Garcia Ferreira